Vestígios do Dia - Kazuo Ishiguro

02 fevereiro 2017

Eu sempre acho extremamente difícil explicar porque eu gostei de um livro, sempre me envolvo em emoções profundas. Ele se torna de certa forma são sentimental que é complexo explica-lo.


Vestígios do Dia
Kazuo Ishiguro
Companhia das Letras 
2015 - 288 pgs.
Este livro foi cedido pela editora como cortesia 


Vestígios do Dia entrou nessa categoria, escrito por Kazuo Ishiguro em 1989, adaptado para o cinema em 1993. Tinha assistido o filme, porém até pouco tempo não tinha a menor ideia de que era baseado em um livro.

Nem começou o ano e eu já digo, com certeza, que este é um dos melhores livros do ano. Ao ler o livro, pensei diversas vezes em outra história, pelo simples aspecto de que: é uma história que conta sobre uma vida comum, pacata e monótona, falo de Stoner de John Williams. Mas, as comparações param por ai ou podem terminar na seguinte frase: dois livros maravilhosos!

Vestígios do Dia conta a história do mordomo Stevens. Ele trabalhou por mais de trinta anos para um aristocrata, Lord Darlington, numa das mais importantes mansões inglesas do começo do século XX. Em 1956 resolve tirar uma semana de férias, depois da sugestão de novo patrão, um norte-americano, Mr. Farraday que comprou a casa de Lord Darlington. O foco maior dessa viagem é encontrar uma ex-governanta da casa, Miss Kenton, que há anos se casou e deixou de trabalhar na mansão.

O livro é um diário da viagem de Stevens e conta portanto, trechos dela e junto lembranças dessas 3 décadas trabalhando para Lord Darlington, outra figura sempre presente na história é a governanta Miss Kenton, a qual modula muitas das reflexões de Stevens. O pai de Stevens, também mordomo, aos poucos é mostrado na história como o exemplo de profissional a ser seguido, de onde parece vir toda a rigidez do trabalho e muitas das suas dificuldades de relacionamento.

O livro vive entre questões pessoais de Stevens e a vida pública do local onde ele trabalha. Kazuo mistura questões políticas da Europa do início do século, como o surgimento do nazismo, tudo parece de uma certa forma confluir com questões pessoais de Stevens e as rotinas da casa. Porém, o mais a interessante é o processo de indagação do personagem/narrador a partir da lembrança de sua história.

Não é uma pergunta comum, a certo ponto da vida, nos questionar se vivemos da forma certa? Se as nossas escolhas estavam certas? Se podíamos ter feito diferente e por isso ser mais felizes? São algumas das coisas que Stevens vai se dando conta ao longo do relato de sua viagem, porém com um tom sempre muito velado, quase que não querendo admitir que as coisas poderiam ter sido diferentes e reafirmando que seus caminhos eram os certos, admitindo apenas que a "dignidade" de seu trabalho lhe era suficiente.

Stevens ao longo de todo livro é uma figura extremamente rígida e dura com os princípios ao qual acredita, seja de ser um bom mordomo, ou quanto a sua vida pessoal. Em nenhum momento ele apresenta uma abertura pra um relacionamento mais profundo, os sentimentos ficam guardados e encaixotados dentro de si mesmo, como ele acha que deve ser.

A própria relação com o pai é conturbada, uma relação fria e em alguns momentos cruel. Esse mesmo aspecto é demonstrado na relação com Miss Kenton, que por diversas vezes tenta iniciar algo com Stevens mas, ele mergulhado nas suas próprias certezas, não vê ou se vê, apenas vai deixando para depois. Stevens é infeliz mas não sabe disso, não se enxerga e não reconhece a si próprio e seus desejos.

Vestígios do Dia tem aquela característica especial de nos fazer sentir a história, não sei explicar ao certo isso, mas é aquela identificação com algum ponto ou com todos, é aquela história tão bem contada que nos proporciona uma imersão profunda na vida daqueles personagens. Isso é uma das coisas que me faz apaixonar por um escritor, Kazuo faz isso. Ele comove quem lê, sem esforço na narrativa, que por si só é muito simples, mas extremamente delicada e sensível e cheia de nuances.

Em Vestígios do Dia a história está mais para o não dito, no sentimento velado que está implícito nas narrativas. É um livro belíssimo, dos melhores que já li na vida, de uma delicadeza tamanha que não é possível com a minha pouca habilidade de escrita descrever de forma justa.

O livro foi adaptado em 1993 para o cinema, com Anthony Hopkins e Emma Thompson, e dirigido por James Ivory, uma boa adaptação por sinal.

Como eu disse, a partir do momento que me envolvo tão profundamente com um livro, que ele se torna tão significativo é muito complexo para que eu escreva algo que faça minimamente sentido, mas acho que esta última frase é suficiente, Vestígios do Dia é um livro belíssimo!


Até!


Um comentário:

  1. Só li 1 livro do autor até agora, mas tenho esse aqui na estante. Fiquei com mais vontade ainda de ler. Gosto muito de histórias de pessoas comuns.
    bjo

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