Mulheres de Cinza - Mia Couto

28 março 2016

Mulheres de Cinza é o primeiro livro da trilogia As areias do Imperador, trata-se de um romance histórico que conta parte da história de Moçambique, mais especificamente o Estado de Gaza, comandado pelo último Imperador, chamado de Ngungunyane, que foi derrotado em 1895 pelos portugueses comandados por Mouzinho de Albuquerque. 


Mulheres de Cinza
Vol 1 - As areias do Imperador
Mia Couto
Companhia das Letras 
2015 - 344 pgs
Este livro foi cedido pela editora, para resenha, por minha escolha. 


Aqui vemos, obviamente fatos e eventos reais sendo mesclados com narrativas ficcionais de Mia Couto, o livro em parte é contado por Imani, uma menina de 15 anos, de umas das tribos tradicionais da região, os VaChopi. Imani aprendeu o português e por isso, torna-se interprete do sargento português Germano de Melo quando este chega a Vila de Nkokolani, esse avô de Imani. 

A tribo de Imani sofre, porque foi contra a invasão de Ngungunyane, porém sua própria familia é dividida, já que um de seus irmãos apóia a Portugal e o outro o Imperador, sua família está dividida entre o apoio a tribo e a chegada dos portugueses, ao mesmo tempo ameaçada pela tropa do Imperador. 

O livro segue uma alternância de capítulos, em um Imani apresenta a sua visão da história, como nossa narradora, no outro, segue sempre uma carta do Sargento contando sua visão da história.

"Chamo-me Imani. Este nome que me deram não é um nome. Na minha língua materna “Imani” quer dizer “quem é?”. Bate-se a uma porta e, do outro lado, alguém indaga:
— Imani?
Pois foi essa indagação que me deram como identidade. Como se eu fosse uma sombra sem corpo, a eterna espera de uma resposta.
Diz-se em Nkokolani, a nossa terra, que o nome do recém-nascido vem de um sussurro que se escuta antes de nascer. Na barriga da mãe, não se tece apenas um outro corpo. Fabrica-se a alma, o moya. Ainda na penumbra do ventre, esse moya vai-se fazendo a partir das vozes dos que já morreram. Um desses antepassados pede ao novo ser que adote o seu nome. No meu caso, foi-me soprado o nome de Layeluane, a minha avó paterna.
Como manda a tradição, o nosso pai foi auscultar um adivinho. Queria saber se tínhamos traduzido a genuína vontade desse espírito. E aconteceu o que ele não esperava: o vidente não confirmou a legitimidade do batismo. Foi preciso consultar um segundo adivinho que, simpaticamente e contra o pagamento de uma libra esterlina, lhe garantiu que tudo estava em ordem. Contudo, como nos primeiros meses de vida eu chorasse sem parar, a família concluiu que me haviam dado o nome errado. Consultou-se a tia Rosi, a adivinha da família. Depois de lançar os ossículos mágicos, a nossa tia assegurou: “No caso desta menina, não é o nome que está errado; a vida dela é que precisa ser acertada”.
Desistiu o pai das suas incumbências. A mãe que tratasse de mim. E foi o que ela fez, ao batizar-me de “Cinza”. Ninguém entendeu a razão daquele nome que, na verdade, durou pouco tempo. Depois de as minhas irmãs falecerem, levadas pelas grandes enchentes, passei a ser chamada de “a Viva”. Era assim que me referiam, como se o facto de ter sobrevivido fosse a única marca que me distinguia. Os meus pais ordenavam aos meus irmãos que fossem ver onde estava a “Viva”. Não era um nome. Era um modo de não dizer que as outras filhas estavam mortas. "

Percebemos aqui novamente a prosa poética, tão característica de Mia Couto, sempre uma delicia de ser lida, o texto de Mia sempre apresenta em si mesmo uma certa satisfação da leitura, independente do conteúdo em si, a forma doce e leve que o autor conta suas histórias, não é só sua marca, como é um refresco para qualquer bom leitor. Porém, confesso que demorei a engrenar a leitura, não sei exatamente devido a que, talvez meu próprio momento, mas senti uma certa dificuldade com o ritmo. 

O livro não me cativou como outros livros do autor, não me deixou tão maravilhada, porém, uma das partes importantes ao meu ver, é a oportunidade que Mia dá aos seus leitores de entrar em contato com a história de Moçambique. 

Nosso contato com a História de qualquer país africano é pouco, todos sabemos devido ao que, mas não quero falar sobre isso, quero falar que esses livros são importantes pois, marcam a identidade de um povo, divulgam essa identidade. Acho mais do que necessário essa formação ampla de um bom leitor, dias atrás vi um vídeo de uma palestra do TED que mostrava uma mulher que tinha lido um livro de cada país do mundo dentro de um 1 ano, e as suas palavras foram mais ou menos essas: descobri que o mundo é muito maior do que eu achava, que é muito mais diverso e maravilhoso, descobri muitas coisas que não imaginava. E, penso como ela, que a literatura é um desses caminhos que pode nos levar  a descobrir esse mundo aí fora. 

"A diferença entre a Guerra e a Paz é a seguinte: na Guerra, os pobres sâo os primeiros a serem mortos; na Paz, os pobres são os primeiros a morrer. Para nós, mulheres, há ainda uma outra diferença: na Guerra, passamos a ser violadas por quem não conhecemos."
até mais!


Um comentário:

  1. Acho que é bem por aí, Mel: ler é ampliar nossa visão de mundo. Estou bem curiosa para conhecer essa nova faceta do Mia, mas vou esperar o lançamento de todos os volumes.
    beijo!

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