Casei com um comunista - Philip Roth

11 dezembro 2015

Casei com um comunista, de Philip Roth, conta a história de Ira Ringold, um homem de origem pobre que se torna líder sindicalista, fortemente influenciado pelo comunismo, muito difundido nas décadas iniciais do século XX, que acaba se tornando famoso ao trabalhar numa rádio, com ator de uma rádio-novela. 

Casei com um Comunista
Philip Roth
Companhia de Bolsa/Companhia das Letras
2014 / 360 pgs
Este livro foi cedido pela editora, por minha escolha para resenha



Nesse livro, mais um capítulo da vida de Nathan Zuckermann (o tão aclamado alter-ego do autor) que aparece em diversos livros, nesta fase Nathan conta um pouco da sua infância e adolescência, através da convivência com os irmãos Ringold, um deles seu professor, o outro Ira, um dos homens que mais admirava na sua adolescência. 

Aliás, é pelo irmão de Ira, Murray que sabemos de toda a sua história, mesclada com as próprias experiências de Nathan com os irmãos. 

Mas uma das coisas mais interessantes do livro, e aliás de muitos dos livros de Roth, é por onde esses personagens andam, quando digo andam, digo metaforicamente, me refiro ao contexto histórico e social no qual Roth insere seus personagens. Aqui vemos um EUA pós-guerra e imerso em muitos movimentos sindicais, ao mesmo tempo que surge o Macarthismo, um movimento de caça às bruxas, ou melhor caça aos comunistas, ou supostos comunistas, que queriam implantar o ideal nos EUA, assim como ocorreu na União Soviética, claro que isso tudo se tratou de uma histeria coletiva, mesclada com muita alienação e interesses políticos, e é nesse contexto que Roth nos insere. 

Ira passa então a ser perseguido e é condenado por praticar o “comunismo”, isso faz com que todos ao seu redor sejam prejudicados, com processos, perda de emprego e isolamento social, até mesmo Zuckerman em certo ponto. 

Roth é um brilhante visionário de sua época e mesmo, da sociedade e cultura na qual está inserido, ele reflete perfeitamente a sociedade hipócrita e tendenciosa estadunidense. 

Ira é uma mescla do que deseja ser e do que é, ao mesmo tempo que luta e busca por direitos seus e dos companheiros, casa-se com uma estrela do cinema da época, passa a viver imerso na vida burguesa proporcionada pela sua esposa, e gosta disso, vive sempre uma guerra, do cara simples e sindicalista e do ator, casado com uma mulher linda e famosa que vive sob holofotes e a mais alta classe dos Estados Unidos. Aí mora os conflitos do nosso personagem, mas mais do que isso, uma casca que tenta se inserir de todos lados, buscando uma identidade com as quais, quase nunca está completo devido a sua fragilidade psicológica. 

Ira vai da utopia a completa frustração em todos os sentidos, na carreira, nas ideologias, no casamento, na família etc. 


Philip Roth é um dos escritores mais contundentes que conheço, quanto a retratar friamente a natureza humana, muitos trazem nossa realidade de uma forma poética e travestida de muita fantasia, mas, Roth não está nessa classe, ele é frio e brilhantemente pontual na construção de seus personagens, não há nunca como fugir da identificação em alguma curva de suas histórias. A sua capacidade de construir personagens de uma forma tão complexa e que trazem em si questões existenciais tão profundas é o que torna um dos mais escritores dos últimos tempos.

Até mais!

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