O Planeta dos Macacos - Pierre Boulle

11 junho 2015

O Planeta dos Macacos é um título mais que conhecido, principalmente devido as diversas adaptações cinematográficas que já foram feitas. Mas, o que as vezes as pessoas não sabem é que na verdade, a "versão" original é de um livro escrito em 1963 pelo escritor francês Pierre Boulle, mesmo autor de outra história, também levada ao cinema com muito sucesso, A Ponte do Rio Kwai. 


O Planeta dos Macacos
Pierre Boule
Editora Aleph 
2015 - 216 pgs
Este livro foi cedido como cortesia pela editora

Não vi todos os filmes, mas dos que eu vi é fácil perceber que o livro é bem diferente. A história começa com um casal que está passando a lua de mel no espaço e acaba encontrando uma garrafa com uma mensagem dentro, claro que sim, estamos no futuro, onde casais viajam no espaço em suas naves particulares como se fossem pegar a estrada para qualquer cidade com seus carros, bem vindo a ficção cientifica ! :)

Essa carta conta a história de Ulysse Mérou, jornalista que parte da Terra no ano de 2500 com outros dois cientistas para explorar o universo e a estrela de Betelgeuse, sim aquela mesma que existe de verdade e do Guia dos Mochileiros da Galáxia! Betelgeuse é uma gigante brilhante famosa nas histórias de ficção científica.

Obviamente o interesse dos cientistas é explorar o universo, descobrir novos planetas mas, igualmente novas civilizações, decidem portanto pelo sistema de Betelgeuse. Lá chegando notam que ao redor existem 3 planetas que poderiam comportar a vida, porém decidem por visitar o planeta Soror, cuja estrutura se assemelha por demais a Terra. 

Qual é a grande surpresa ao chegar no planeta Soror? Além de ser um planeta com uma estrutura biológica igual a Terra, também tem seres humanos e macacos, porém neste planeta quem tem inteligência e cultura são os macacos!

O mais interessante desse livro ao meu ver, é a contextualização crítica de sociedade, mas também questões biológicas importantes. Permitam-me "puxar sardinha" para meu lado bióloga, mas esse livro apresenta conceitos importantes de evolução biológica, além de discutir questões como a superioridade de espécies e ética na ciência como testes em animais etc. 

A história em si é uma narrativa empolgante sobre esse planeta e a sobrevivência de Ulysse como um ser humano animalizado, o que eu quero dizer com isso? É que em Soror, seres humanos vivem em florestas, comportam-se como animais selvagens, não falam, não se comunicam, vivem mais como o que gostamos de chamar de "homens das cavernas" do que com o Homo sapiens que conhecemos hoje. 

Nesse contexto são apresentadas várias questões que ainda permeiam as discussões sobre evolução humana. Somos criados por um ser superior ou somos produtos apenas da evolução biológica que através de mutações aleatórias nos trouxe ao que somos hoje ? Aqui vemos o embate comum da religião com a ciência, não que as duas sejam necessariamente adversárias, não, não são, são opostas no sentido de que cada uma lida com prerrogativas bem diferentes, entretanto ainda hoje, (e desde que Darwin desvendou os mistérios da evolução biológica e seleção natural) temos um embate entre criacionistas e evolucionistas. Os dois lados tem falhas e sofrem de teimosia, essa é uma questão bastante presente nos Estados Unidos desde sempre, no Brasil temos hoje esse assunto sendo abordados com o crescimentos de cristãos protestantes renovados. Enfim, não quero entrar no embate mas, isso aparece muitas vezes durante a história e é um assunto ainda hoje polêmico. 


- De um século para cá - ela declarou num tom doutoral -, fizemos progressos notáveis no conhecimento das origens. Antigamente acreditava-se que as espécies eram imutáveis, criadas com suas características  atuais por um Deus todo-poderoso. Mas uma linhagem de grandes pensadores, todos chimpanzés, mudou completamente nossas ideias a esse respeito. Sabemos que provavelmente todas elas tiveram uma raiz comum. - O macaco descenderia do homem ?- Alguns apostam nisso; mas não é exatamente isso. Macacos e homens são ramos divergentes, os primeiros alçando-se pouco a pouco até a consciência, os outros estagnando em sua animalidade. Muitos orangotangos, aliás, ainda teimam em negar a evidência. (pg 88)

Quando o autor fala na história sobre a evolução dos macacos a seres inteligentes e, portanto "superiores" as outras espécies, ele traz muitas discussões. A primeira delas, me permitam novamente trazer a tona meu lado bióloga, mas em tudo que vemos, os seres humanos são colocados como seres a parte do mundo natural, como se fossem "especiais" e não produtos igualmente da  evolução biológica que atua sobre todos os seres vivos do globo, somos sempre o topo da cadeia, o mais inteligente, o melhor e o mais evoluído. Aí eu pergunto em que ? E por que ? Isso é trazido a tona na história, mas através dos macacos que se veem como nós, como especiais, fora de toda a "selvageria" da natureza, com sua cultura superior e inteligência, que os constitui "seres a parte da criação". Em parte somos realmente diferentes, conseguimos desenvolver cultura, abstração e previsão de futuro, são nossas grandes diferenças de outros primatas que habitam o globo, mas colocar-nos sempre como seres a parte, especiais e mais evoluídos, faz com que não nos sintamos parte do processo natural do globo, e aí portanto, podemos matar animais indiscriminadamente, derrubar árvores e destruir florestas com a mesma rapidez que compramos um novo celular. As reações desse nosso comportamento podem já ser visto nos fenômenos como aquecimento global, falta de chuvas etc etc. Pierre Boulle com sua história quase despretensiosa nos faz perceber como num espelho todas as nossas falhas conosco mesmo e com nosso planeta. 

O livro pode suscitar igualmente um incomodo quando vemos o homem como cobaia dentro de laboratórios, seria o uso de animais ético? Até onde podemos ir? Seria ético causar danos a saúde desses "animais" para testes? Enfim isso é uma discussão longuíssima que eu não pretendo fazer aqui, com milhões de poréns. Só quero salientar como O Planeta dos Macacos não é um simples livro de ficção científica, na verdade aborda questões muito importantes, como as citadas acima e ainda tem uma exaltação a ciência como poucos livros que li. E só para finalizar não entenda por isso, que todos os conceitos apresentados pelo autor estão usados de forma correta, sim existem erros conceituais quando ele quer tratar da teoria da seleção natural de Darwin (mesmo não chamando assim), mas o mérito é discutir isso, discutir o parentesco entre homens e macacos, a presença do homem dentro do ramo evolutivo dos primatas, isso é um passo grande e maravilhoso. 

Então é isso, já falei demais, se você gosta de ficção, ciência, biologia e uma boa história, O Planeta dos Macacos é o livro indicado para você!

Até mais!






Um comentário:

Olá ! Obrigada pelo comentário, ele será respondido aqui mesmo, ok!?
Obrigada pela visita e até mais!

 
FREE BLOGGER TEMPLATE BY DESIGNER BLOGS