Um Teto Todo Seu - Virginia Woolf

02 abril 2015

Esse livro começa devido a um pedido de palestra a Virginia Woolf em uma universidade, cujo tema seria Mulheres e Ficção, a partir daí a autora começa suas reflexões e pesquisas sobre o assunto, que no fim das contas resulta em uma obra maravilhosa. Entretanto, é importante dizer que este livro é de não-ficção e que o livro com cerca de 190 páginas, não foi só o resultado das palestras, mas para a edição do livro, Virginia ampliou muito a pesquisa e o conteúdo em si.

Um Teto Todo Seu 
Virginia Woolf
Editora Tordesilhas 
2014 - 190 págs

O livro inicia com um clima despretensioso e Virginia vai desenrolando calmamente suas razões para a dificuldade de uma mulher se tornar escritora. Entretanto, o título do livro não é à toa, o que Virginia repete e repete é a falta de oportunidades acadêmicas, monetárias e de um espaço (teto) para que essas mulheres pudessem produzir literatura, ou seja, segundo Virginia uma mulher precisaria de 500 libras anuais e um teto todo seu para criar seu trabalho.

Uma das coisas que mais me assustou ao ler um livro que foi originalmente lançado em 1929, é a atualidade de alguns pontos no livro. A forma como uma mulher lida com a outra, pejorativamente e julgadora, como essa mulher era retratada na literatura, seja na do século XIX quanto na do século XXI, ainda somos, em sua maioria, vistas como meros coadjuvantes e associadas à um homem que ou a “protege”, idealiza ou a humilha. O mercado literário igualmente, é dominado por escritores, as prateleiras das livrarias tomadas por eles, é simples matemática, quantos livros escritos por mulheres são ou foram lançados por ano em comparação ao de escritos por homens?  A diferença é imensa e inegável.

Virginia vai narrando a saga das escritoras que a antecederam, Jane Austen, Mary Ann Evans que usou um pseudônimo masculino George Elliot, e as irmãs Brontë, todas foram verdadeiras heroínas ao lançar livros em uma época que a mulher não tinha direito nem a ter uma opinião própria.

Virginia durante sua pesquisa sobre mulheres e literatura descobriu que, obviamente, o número de escritoras nas estantes era pequeno mas, surpreendentemente a mulher era intensamente discutida na literatura, desde a mulher idealizada, a super heroína que não tem defeitos, uma mulher inatingível, que é tratada no livro de forma completamente diferente das mulheres de sua época, ou de forma pejorativa, descrita como cidadã de segunda classe. Nesse momento Virginia levanta um ponto importante, por que os homens teriam a necessidade tão intensa de intensificar uma inferioridade feminina constantemente? Isso seria um medo da mulher supera-lo? Rebaixando essa mulher ele estaria usando-a como um degrau para se sentir melhor e mais poderoso?

"As mulheres durante todos estes séculos serviram de espelhos possuindo o poder mágico e delicioso de refletir uma imagem do homem com o dobro do seu tamanho natural. Sem esse poder, provavelmente, a Terra seria ainda pântano e selva. As glórias de todas as guerras seriam desconhecidas. Estaríamos ainda arranhando os contornos de cervos nos restos de ossos e trocando pederneiras por peles de carneiro ou qualquer outro ornamento simples que agradasse ao nosso gosto sem sofisticação. O Super Homem ou o Dedo do Destino nunca teriam existido. O Czar e o Kaiser nunca teriam portado suas coroas ou as perdido. Qualquer que possa ser sua utilidade em sociedades civilizadas, espelhos são essenciais a toda ação violenta e heróica. Eis porque tanto Mussolini quanto Napoleão insistem tão enfaticamente na inferioridade das mulheres, pois se elas não fossem inferiores, eles pararariam de engrandescer-se. Isso serve para explicar, em parte, a indispensável necessidade que as mulheres tão freqüentemente representam para os homens. E serve para explicar como eles ficam inquietos quando colocados sob a sua crítica, como é impossível para ela dizer-lhes que este livro é ruim, este quadro é fraco, ou o que quer que seja, sem causar mais dor ou despertar mais raiva que um homem que fizesse a mesma crítica. Pois, se ela começa a dizer a verdade, a figura no espelho encolhe, sua aptidão para a vida é diminuída. Como pode ele continuar a passar julgamentos, a civilizar nativos, a fazer leis, escrever livros, arrumar-se todo e discursar em banquetes, a menos que possa ver a si mesmo no café da manhã e no jantar com pelo menos o dobro do tamanho que realmente é?"

Uma das partes mais legais para mim, foi a exaltação dos trabalhos das autoras do século XIX, que tiveram de ir contra tantas objeções e dificuldades para escrever seus livros, o simples fato de Virginia nos contar que Jane Austen escrevia na sala de sua casa, sem ninguém saber, nem mesmo seus empregados, faz com que ao ler essas escritoras pensemos além do que está ali escrito, mas no desafio que foi lançar essas obras.

Além das autoras é importante pensar no modo como as mulheres são abordadas, já vi muita gente dizer, “não gosto de Jane Austen por que nos livros dela a mulher só toma chá e procura casamento”, Virginia nos faz ver que esse era o mundo feminino, fechado em si mesmo, no casamento e nos afazeres domésticos, mulheres não podiam votar, ir a universidade, receber heranças etc etc., o que a tornava dependente do mundo masculino completamente, ou seja o mundo retratado por Jane e pelas outras autoras era o possível que uma mulher podia almejar.

Outro ponto importante que Virginia nos faz pensar são as obras escritas por homens, será que se Shakespeare fosse mulher poderia ter escrito tudo o que escreveu? Homens podiam ter formação literária, compreender as técnicas de escrita e os autores clássicos, enquanto mulheres não podiam ler. Quantas mulheres escritoras perdemos ao longo da história? Quantos clássicos poderíamos ter na estante escritos por mulheres se essas pudessem ter formação, 500 libras anuais e um teto todo seu?

Muitos, provavelmente.

“A mulher precisa ter dinheiro e um teto todo dela se pretende mesmo escrever ficção”



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