Um Outro Amor - Karl Ove Knausgard

12 março 2015

Karl Ove Knausgaard
É sempre muito difícil expressar em palavras, em meia dúzia de frases um sentimento sobre um livro, é complicado expressar as sensações, emoções e conclusões que tiramos dele, a minha relação com a escrita é diversa porque existem livros a serem resenhados 5 minutos depois de lidos e outros que nem 3 meses resolvem para conseguir concatenar as ideias. 

Como disse tem livros que leio e o processo de resenha é lento, mas tem um autor que ganha de todos em relação a isso, esse é Karl Ove Knausgard. Quando li o primeiro livro A Morte do Pai a minha sensação foi de um soco no estômago que me tirou completamente o ar, me virou de ponta cabeça e me deixou tonta, foi uma das melhores experiências com leitura que já tive, só que esse livre pertence a uma série escrita pelo autor, chamada provocativamente de Minha Luta, na qual Karl Ove narra em 6 volumes aspectos diferentes de sua própria vida, temos então um autor-narrador ou narrador-autor, é sim uma biografia, mas muito muito diferente de qualquer outra que eu já li, geralmente esse gênero é um tanto quanto romântico ou agressivo mas, retoma a vida de determinada pessoa de um modo histórico, isso não é o que Karl Ove faz com sua própria história, Um Outro Amor não tem ordem ou sequência lógica, ele justamente é o oposto disso. 


Um Outro Amor
Karl Ove Knausgard
Companhia das Letras
2014 - 592 pgs
Este livro foi cedido pela editora para resenha por minha escolha pessoal

Enquanto no primeiro volume Karl Ove discutiu a sua relação conturbada com o pai e o impacto que a morte dele teve na sua vida, o segundo volume trata dos relacionamentos do autor, mas principalmente da sua relação com a esposa atual, Linda. 

Vou repetir o mesmo que disse quando comentei sobre o primeiro livro, Karl Ove escreve de uma das formas mais cruas que eu conheço, e quando falo crua não digo insensível ou agressivo, é de uma forma muito sincera, tanta sinceridade que até assusta em alguns momentos. 

Geralmente me perguntam quando falo e elogio o livro qual é a história dele, a verdade é que isso é muito difícil de explicar, resumir os livros de Karl Ove não é possível, como que eu explico que um livro em que o personagem principal passa muito tempo fumando, tomando café, escrevendo, narrando suas visitas a livrarias ou como se sentiu quando levou a filha a um curso ou brigou com a mulher é fantástico? É um livro repleto das banalidades do dia-a-dia, dizendo assim de novo pode parecer simples, mas não é. 

O ponto principal e de partida para tudo, claro que é o próprio autor, e assim como outros elementos vão se incorporando à história, a esposa de Karl Ove, Linda, algumas ex-namoradas, seus filhos e seu amigo Geir, ou seja, ele traz para dentro de sua história muitos personagens reais que, como  disse o autor em algumas entrevistas, não gostaram nada de serem retratados nos livros. 

Karl Ove narra eventos dos mais comuns como já disse antes mas, isso sempre se amplia na narrativa do livro, essa ampliação pode tanto se tratar de um turbilhão mental e sentimental do autor, assim como em acessos emocionais exteriores. Karl nos passa sempre a sensação de uma busca por algo além, como uma incessante insatisfação consigo, com a vida, com sua criatividade e até com a sua família. A parte mais interessante de tudo isso é perceber a mágica do corriqueiro, do comum e da suposta banalidade da vida cotidiana, por isso penso o que é essa tal de rotina chata que sempre nos perguntamos? O quão superficial somos na observação do mundo que nos rodeia? Karl Ove não enxerga como nós enxergamos o cotidiano, pra ele isso é material de construção de histórias e enredos fantásticos. 

A solidão, ou a necessidade de, é um dos pontos principais do livro, porque mesmo que a busca pelo relacionamento sempre esteja evidente e até a paixão de Karl por Linda, a sua necessidade de solidão também se torna marcante, isso na verdade desde o primeiro volume da série, Karl Ove é essencialmente um homem solitário. E nas alternâncias de humor e assuntos o livro vai se construindo. 

Karl Ove escreve de um modo que o mínimo de identificação do leitor é possível, seja numa situação em que se sente completamente inadequado ou quando está apaixonado, o livro dá uma estranha sensação de pertencimento e de identificação, mesmo que você não entenda o por que. Na verdade talvez o por que esteja na normalidade da vida de Karl Ove e no nosso silêncio quanto a vida.

Karl Ove Knausgaard brilhante como sempre, aguardando ansiosamente o terceiro volume.

2 comentários:

  1. Sobre a obra de Karl Ove Knausgård vários autores portugueses deram depoimentos aqui: http://observador.pt/especiais/os-livros-do-desassossego/

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  2. Eu gostei mais ainda desse volume do que do primeiro...uma das coisas que mais gostei foi da sinceridade em relação ao cuidado com os filhos, que ele admitia ser um saco mas fazia pq tinha que aguentar, pq faz parte

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