O Engate de Nadine Gordimer

14 maio 2014

Nadine Gordimer é uma escritora sul-africana nascida em 1923, vencedora do prêmio Nobel de Literatura de 1991, publicou O Engate (The Pickup) em 2001, no Brasil foi traduzido pela Companhia das Letras em 2004.

O Engate
Nadine Gordimer
Companhia das Letras
2004 - 291 páginas
Este livro por cedido pela editora, por escolha pessoal, para resenha. 


Nadine é conhecida por ter um tom político em suas obras, principalmente as que são anteriores ao fim do Apartheid. O Engate faz parte da sua produção pós-apartheid e por isso um caráter menos ligado as questões políticas e raciais, porém ainda carrega em si um discussão sobre a imigração para Africa do Sul.

O Engate fala do relacionamento entre uma sul-africana de família rica, Julie Summers, que rejeita todo dinheiro, a fama, e a vida social privilegiada em consequência de sua origem, para viver especialmente entre um grupo de pessoas, que a seu modo contestam a sociedade sul-africana e a política do país. Do outro lado temos um imigrante ilegal de algum país árabe (que não é esclarecido no texto), Abdu um suposto mecânico, que conhece Julie, quando ela leva seu carro para conserto na mecânica que Abdu trabalha. 

Ambos se encontram e começam uma relação improvável, em diversos sentidos, tanto quanto à origem, a religião, e mesmo quanto a sensação que o leitor tem, ao ler narrada a história de ambos, a construção desse amor não é algo explosivo ou extremamente evidente, é sorrateira e discreta, assim como ambos personagens. 

É interessante a história de amor de Julie e Abdu porque, ao decorrer da leitura, percebemos que cada um anda de um lado da estrada, ambos querem se afastar de suas raízes, renegando relacionamentos e se mantendo-se longe de tudo aquilo que está relacionado com suas origens, inclusive de certo modo suas famílias. Mas, cada um anda de lados opostos, porque daquilo que Julie quer se afastar, Abdu quer se aproximar, entretanto essa contramão dos desejos de cada um, não é o suficiente para tornar a relação impossível. 

Julie tem uma péssima relação com o pai, no qual ela projeta todo o "mal de uma sociedade baseada no dinheiro", Abdu quer se afastar da pobreza extrema e da "falta" de oportunidades que diz ocorrer em seu país. Por isso, digo que esta é uma relação na contramão de desejos, que se mantém apenas por um amor pessoal e totalmente isento das influências (até certo ponto) externas. 

É interessante como neste livro, apesar da questão racial, do apartheid, estar um tanto fora de questão, a imigração sim é discutida no livro, a entrada de cidadãos de outros países e a busca por novas oportunidades nesta África do Sul pós-apartheid, que promete (mas não cumpre) oportunidades iguais a todos. Nada que os maiores países do mundo não sejam exatamente iguais. 

Eu enquanto lia o livro, me aproximei demais de Julie, e me afastei de Abdu, por diversas razões, talvez mais por questões pessoais minha como leitora, do que por uma racionalização de qualquer questão literária que envolve ambos. Julie é aberta, tem olhos que querem enxergar além daquilo que a situação propõe, enquanto Abdu é pragmático e levemente insensível,  e basicamente está atrás do "sonho americano". É um resumo injusto é verdade, mas não há como dizer mais, sem soltar um spoiler qualquer. 

Li o final do livro, pouco antes de ir dormir e quase não dormi, pensando nos destinos escolhidos por aqueles personagens, cada vez mais eu acho que o bom livro é aquele que mexe conosco de alguma forma, que te sensibiliza, que te faz pensar, que não te deixa dormir, aquele que atormenta ou que te torna levemente obsessivo. Bom livro é aquele que fala com a gente, que toca num ponto sensível e que nos persegue por dias e dias. Nadine Gordimer fez isso comigo depois de terminar O Engate, ainda penso em Julie e Abdu e nas suas escolhas. 

Até mais!

2 comentários:

  1. Oi, Melissa!
    Que bom que você gostou do livro. Acredito que livros bons são aqueles que, depois que finalizamos a leitura, nos deixam refletindo, imaginando o futuro e passado de seus personagens. Adorei a resenha!

    Beijos, Gabi Prates
    Palácio de Livros

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  2. Oi, Mel!
    Estava doida para ler sua resenha, mas só agora tive um tempinho.
    Só li 1 livro da Nadine até agora, mas foi uma boa experiência. Esse aí também tem tudo para me agradar (e me deixar pensando...)
    bjo

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