O amante de Marguerite Duras

03 maio 2014

Quando eu decidi ler O Amante de Marguerite Duras, as primeiras informações que me vieram foi que se tratava da relação da autora com um homem com o qual iniciou sua vida sexual, bem depois que li, percebi que o livro é bem mais do que isso.


O Amante
Marguerite Duras
Editora Nova Fronteira
1984
127 páginas


Este livro é um relato autobiográfico de Marguerite Duras, mas ao contrário do que parece ao ler o título, não se trata apenas de um livro sobre amantes ou sexo, mas sim de relações humanas, e como elas podem ser complexas, principalmente nas primeiras décadas do século XX.

O livro parte de um ponto central o relacionamento que a menina iniciou aos 15 anos com um rico jovem chinês de 27 anos, as margens do rio Makong na antiga Indochina. Falo que este é o ponto central, porque ao redor dele é construído pequenos relatos da relação da jovem com a mãe, e com os dois irmãos. Relações essas extremamente atribuladas, com  a mãe uma relação permanente de amor e ódio, ao mesmo tempo que sente pena e sofre pela má sorte da mãe não ter realizado seus sonhos, por outro lado sente raiva pela proteção e preferência que dá ao irmão mais velho, um homem relatado como violento, agressivo e abusivo. Já sua relação com o irmão mais novo, aparenta ser a mais pacífica e a que a menina apresenta como mais próxima e amorosa. 

A autora constrói uma história bastante fragmentada, não linear. São na maioria dos casos dados pequenos fragmentos de histórias, dados que aos poucos vão se  entrelaçando e a autora vai como que desnudando sua história para nós. Aliás uma história extremamente dura, fria, em se tratando de uma descrição amorosa, espera-se certa empatia, não senti isso ao ler, senti personagens que apesar de quererem estar juntos, sabiam que devido a todo contexto social de ambos, seria impossível.

Estamos acostumados com histórias de amores improváveis que dão certo, que apesar dos pesares, acabam contornando os problemas que surgem, porém não vemos isso na narrativa de Marguerite Duras. Vemos personagens assumindo uma paixão a quatro paredes, ou numa limusine preta, de forma fria e racionalizando cada passo dado. De um lado temos uma menina de 15 anos, iniciando sua vida sexual, com uma família em dificuldade financeira, e de outro lado um jovem chinês rico, cuja família nunca permitiria que ele se casasse com uma branca ocidental. 

Não acho que se trata necessariamente de uma história triste, mas desesperançosa, de uma jovem extremamente consciente do mundo que a rodeia, sem as fantasias normais de uma menina de 15 anos, talvez endurecida pela confrontação diária com a realidade de decepções que a mãe lhe impunha. 

Eu senti uma estranheza enorme com esse livro, terminei-o pensando que não tinha gostado, depois achei que era pela forma fragmentada que a autora tem de contar história, mas depois de pensar bastante, acredito que foi essa falta de esperança que me causou um incomôdo profundo, essa menina que ainda é quase uma criança mas encara o mundo de forma mais real que sua mãe, de um amor que poderia ter funcionado, mas que ambos preferiram não tentar. Todos esses fatores trazem um tom muito diferente ao livro, e é nessas estranhezas que percebemos o brilhantismo de quem escreveu. 

Até mais!



4 comentários:

  1. Linda resenha, Mel! Quando os filhos são mais adultos que os pais isso traz uma estranheza mesmo. E não dá pra sentir pena da menina justamente porque ela não parece uma menina, ou será que confundimos a menina com a narradora mais velha? Acho esse efeito criado pela Duras bem significativo e gostei muito da escrita dela.
    Beijinho, querida!!

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  2. Eu tive a mesma estranheza em relação ao texto da Duras, Mel.
    Terminei sem saber se tinha gostado, refletindo muito, mas são esses os livros que valem a pena né!
    Adorei a resenha.
    Beijo enorme.

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  3. Mel, eu também me senti incomodada com essa falta de esperança, como você bem apontou! Mas também me senti envolvida pela beleza profunda de alguns momentos da narrativa. Como a Lua já falou esse efeito criado pela Duras é muito interessante: creio que "suportamos" a dureza do livro mais porque já vemos a menina com os olhos da mulher que a descreve e que, no fundo, quer se reencontrar com quem ela foi e como se transformou.
    Beijos!

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  4. Eu atribuí parte dessa frieza ao fato de a autora ter escrito suas memórias muito tempo depois (na verdade, reescrito), com distanciamento e sentimentos apaziguados. Mas, claro, não dá para negar que a menina tem uma maturidade assustadora.
    beijo!

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