Poética de Ana Cristina César

01 abril 2014

Sou uma leitora assídua de romances e de poesias, aprendi a "ler" poesias, depois de muito tempo que  me tornei leitora, antes elas pareciam todas muito enigmáticas para mim. Descobri a poesia através de Pablo Neruda, foi minha porta de entrada e por isso sempre digo que ele é meu poeta favorito.


Poética 
Ana Cristina César
Companhia das Letras 
2013
503 páginas
Este exemplar foi cedido pela editora para resenha


Final do ano passado a Companhia das Letras lançou Poética de Ana Cristina César, confesso que não conhecia bem essa poeta brasileira, logo que o livro saiu tive recomendações fortíssimas de colegas que me disseram que se eu gostasse de poesia deveria ler Ana C. Ainda bem que segui as recomendações da Tati e da Déa (ambas blogueiras, links dos blogs, é só clicar no nome delas).

Ana Cristina César poeta carioca, nascida em 2 de junho de 1952, faleceu em 1983 depois de um suicídio. Ana C. faz parte de uma geração de poetas e escritores que são conhecidos como "geração marginal" ou "geração mimeografo". Ambas as denominações estão ligadas com o fato desta geração ter criticado as formas e processos editoriais de sua época, obviamente intimamente ligada com uma geração que contestava muitas coisas, principalmente a estrutura política e cultural vigente durante o período. Grande parte da "geração mimeográfo", eram assim chamados por imprimirem suas produções de forma artesanal e fora do sistema editorial ¹.

A verdade é que a poesia de Ana Cristina César, traz referências fortes a uma contracultura que se estabeleceu em meados de 1970, porém com uma escrita bastante particular, inclusive para seus contemporâneos "marginais"². Ana C. fala sobre o cotidiano, sobre temas corriqueiros, um tanto ácidos para a época em que foram escritos, como por exemplo, sexo.  

Ana C. não é uma poeta fácil de ser lida, sua poesia eu diria, precisa ser digerida de forma lenta e gradual. Principalmente por ser tratar de um cotidiano bastante íntimo nos seus textos, muitas vezes a sua poesia é tida quase como autobiográfica, porém não é esse o intuito da escritora, ou pelo menos não só esse. A poesia nos parece próxima por se tratar do dia a dia, de situações próximas e corriqueiras ao mesmo tempo que brinca com as palavras, se insinua para o leitor de modo a provoca-lo, tanto com textos aparentemente herméticos, quanto com o seu tom habitual de contestação própria de sua época e de sua poesia. 

Não tenho pretensões neste texto de analisar ou discutir a obra de Ana C., nem ao menos de fazer proposições que estão fora do escopo deste blog, digo apenas que a leitura desta obra foi para mim, como que uma abertura de portas para um tipo de poesia/prosa ou mesmo literatura, completamente diferente da minha zona de conforto. Foi necessário algum tempo, muitas conversas e algumas leituras para me situar e me acostumar com as poesias. Com toda certeza não absorvi tudo aquilo que Ana Cristina pode me proporcionar, bom mas assim é a poesia que a cada nova leitura nos abre novas portas e visões. 

Entender Ana C. é muita pretensão, talvez sentir sua obra seja uma classificação melhor, a suposta despretensão de seus textos, ou mesmo esse tom de cotidiano, pode fazer pensar que essa é uma autora que revela, não ela não revela, ela tranca a sete chaves seu texto com suas palavras e é obra de você leitor achar cada chave e ir descobrindo essa poeta única brasileira. 


estou atrás
do despojamento mais inteiro
da simplicidade mais erma
da palavra mais recém-nascida
do inteiro mais despojado
do ermo mais simples
do nascimento a mais da palavra  
 


Se permita transgredir ao ler Ana C. assim como ela mesmo transgrediu a poesia de seu tempo.

Nesta edição estão compiladas todas as obras de Ana Cristina César, toda a sua produção está presente porém, na sequência em que foi lançada pela autora e alguns livros póstumos, Cenas de Abril (1979), Correspondência Completa (1979), Luvas de Pelica (1980), A teus pés (1982), Inéditos e Dispersos (1985), Antigos e Soltos: poemas e prosas da pasta rosa (2008) e Visita à Oficina, uma compilação de textos inéditos encontrados nos materiais de Ana C. Além disso, o livro conta um excelentes posfácio e apêndice com mais informações e materiais sobre a autora. Para quem gosta de poesia, ou para quem gosta de Ana Cristina, está é uma edição de ouro, que não deve ficar fora da estante, além de ser extremamente bem cuidada e com excelente diagramação.   

¹. Fonte: Instituto Moreira Salles
². Territórios dispersos: a poética de Ana Cristina Cesar. Annita Costa Malufe

3 comentários:

  1. Melissa, que resenha incrível! Adorei essa ideia (e a imagem) dos textos trancados que cabem ao leitor destrancar de acordo com sua necessidade. É claro que algumas coisas permanecerão trancadas e esse mistério dá tanto poder à literatura.
    Lindo <3

    beijo grande,
    Maira

    ResponderExcluir
  2. Já disse que amei sua resenha, amei muito Mel!
    Você conseguiu deixar um gostinho de quero mais em uma poesia que realmente, é para a vida! Quando eu fiz o trabalho sobre ela pensei muito nisso, apesar do fim precoce que a vida dela teve, parece que ela viveu tanta coisa e teve aquele olhar que só os melhores poetas tem, tanto quando olha pra si própria como para a realidade ao seu redor.
    Beijo enorme!!

    ResponderExcluir
  3. O que é que eu faço agora com essa minha necessidade de ler esse livro, dona Mestre Jedi Melissa??? Aliás, a vontade já existia, tanto que o livro já está no kobo, mas não rola ler poesia nele, bem que tentei. rs Mas essa sua resenha me deixou mais que necessitada do livro!! Adorei!!

    Xerinhos!

    ResponderExcluir

Olá ! Obrigada pelo comentário, ele será respondido aqui mesmo, ok!?
Obrigada pela visita e até mais!

 
FREE BLOGGER TEMPLATE BY DESIGNER BLOGS