Teoria Geral do Esquecimento de José Eduardo Agualusa

11 fevereiro 2014

José Eduardo Agualusa estava na minha lista de autores para serem lidos em 2014. Tantas pessoas recomendaram e elogiaram que não pude deixar de incluir o escritor angolano na minha meta de autores para serem conhecidos neste ano.

Resolvi logo começar pelo seu livro mais recente e não me arrependi. Estou tendo quase certeza de que a literatura africana está entrando para minha categoria de literatura favorita, já compro livros de autores africanos, sem pensar muito, porque todas as minhas experiências tem sido fantásticas. Há um certo encantamento na escrita de autores angolanos, moçambicanos, sul-africanos, sejam de onde forem, é um texto delicado, porém com assuntos fortes e em muitos casos trágicos.

José Eduardo Agualusa é angolano, nascido em 1960, estudou Agronomia e teve seu romance de estréia, A Conjura, editado em Portugal em 1989, . Hoje tem seus livros traduzidos para mais de 25 idiomas.

Teoria Geral do Esquecimento
José Eduardo Agualusa
2012
Foz Editora
176 páginas 


Em seu romance mais recente, Teoria Geral do Esquecimento (2012) Agualusa nos conta a história de Ludovica, ou Ludo, portuguesa que passa a morar na então colônia de Portugal, Angola, depois que sua irmã se casa com um viúvo angolano. Uma revolução pela independência de Angola estoura e Ludo de repente se vê sozinha em seu apartamento, assustada, perdida e isolada. Sendo assim ela constrói uma barreira entre ela e o mundo, se fecha em seu apartamento e passa a ver os acontecimentos através da janela de seu alto apartamento. 


O céu de África é muito maior que o nosso, explicou a irmã. Esmaga-nos. 


Logo de início Agualusa nos conta que apesar de existir os tais diários de Ludo contando 28 anos de enclausuramento, ele nos alerta que todo resto é ficção.

Ludo passa a ver então uma série de acontecimentos através de sua janela, fatos que a princípio parecem isolados mas, que com o decorrer da história percebe-se uma teia que os une, até que essa fatos cheguem e batam à porta da própria Ludo.

"Não se atormente mais. Os erros nos corrigem. Talvez seja necessário esquecer. Devíamos praticar o esquecimento."
Essas histórias aparentemente isoladas que vão se unindo conforme a história progride faz com que o leitor não queira largar do livro, cada página é um novo ponto interligado que vai construindo uma história sensível, construindo as relações, casuais ou não, entre diferentes personagens. 

A leitura não é nem de perto pesada, é poética, é leve, porém recheada com os medos e dores de Ludo e da própria história da independência angolana que ao longo dos anos vai se tornando uma guerra civil, isto é o pano de fundo presente na história de cada um dos personagens. Agualusa percorre cerca de 30 anos da história de Angola, mergulhada em violência e preconceito. 

Pode-se comer melhor sem gastar mais, explicou pequeno Soba. Tu e os teus amigos enchem a boca com palavras grandes, Justiça social, Liberdade, Revolução, e entretanto as pessoas definham, adoecem, muitas morrem. Discursos não alimentam. O que o povo precisa é de legumes frescos e de um bom muzonguê, ao menos uma vez por semana. Só me interessam as revoluções que começam a sentar o povo à mesa. 

Agualusa consegue nos enredar com sua Ludo e os outros personagens que aos poucos vão entrando na história, apesar de início tudo parecer aleatório e descontextualizado, tudo aos poucos vai se unindo de forma magistral, de forma que o leitor não consegue tirar os olhos das páginas, antes de saber qual o próximo passo, e assim até o final.  Quase todo o livro é narrado pelo ponto de vista de Ludo, alternando capítulos com poesias e textos refletindo situações que estavam ocorrendo no livro e sensações e pensamentos de Ludo. 

É prosa e poesia, é história e estória confluindo para uma narração doce e suave, de uma pessoa que se escondeu por 30 anos, assustada, amendrontada mas, que tarde ou cedo, descobriu seu caminho e a saída de seu enclausuramento pelas mãos daquilo que lhe causava tanto espanto e pavor.

O Paraíso é o espaço que ocupamos no coração dos outros. 

Até mais !


16 comentários:

  1. Wow, Melissa o que dizer?. Resenha que nos leva a querer ler este livro a qualquer custo. Dica anotada para 2014 sem dúvida.

    Hug lindona

    ResponderExcluir
  2. Mel, sua resenha ficou linda. Infelizmente eu não cheguei a gostar desse livro tanto quanto você, acho que eu esperava outra coisa, acho que essa história merecia maior aprofundamento, talvez. Mas há vários momentos muito bons, quero ver se vou gostar de outras coisas do autor. Beijo! =)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu tb estou super ansiosa para ler mais coisas do Agualusa, estão na fila
      bjos

      Excluir
  3. Euia comentar mas, o que comentar depois de um texto deste? Agualusa é bom demais! Tenho que ler este! :) ótima e linda resenha, Mel.
    Beijo e Parabéns

    ResponderExcluir
  4. Oi, Mel!
    Tenho essa mesma impressão sobre autores africanos, sabia? Li poucos até agora, mas todas foram leituras marcantes. Espero conhecer o Agualusa em breve. E que capa é essa? Linda demais!
    bjo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Autores africanos estão no meu hall de favoritos da vida :)
      bjão

      Excluir
  5. Melissa esse livro é lindo, é amor <3

    Gosto muito dessa identidade que a literatura africana carrega e o jeito que os autores conseguem trabalhar identidade africana e temas universais e fazer essas obras maravilhosas.

    Um beijo!

    ResponderExcluir
  6. Melissa, querida! Adorei tua resenha... não li até o fim por princípios hehehe
    Mas se eu já estava inclinada de comprá-lo, agora acabei de fechar a encomenda. Literatura africana é VIDA.

    VHM e Mia Couto (angola, moçambique..) são meus preferidos.

    Um beijo!!
    Camilla
    Companhia de papel.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que bom Camilla, espero que aproveite a leitura tanto quanto eu!
      bjos

      Excluir
  7. Esse foi o primeiro livro do Agualusa que eu li e depois a minha vontade era ler todos os outros. Recentemente li Milagrário Pessoal, também gostei bastante. É como você disse, os africanos tem uma escrita encantada.

    Boas leituras!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Tem sim Flavia, são autores muito especiais, bjo

      Excluir
  8. Mel linda, sua resenha ficou incrível! Deu até pena não ter gostado tanto assim do livro como você, dá pra sentir o seu transbordamento através das palavras e isso é sempre bom de sentir na literatura!
    Acho que Agualusa não é pra mim rsrs
    Beijo enorme!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não acredito Tati !!! Mas tudo bem, quem sabe um outro livro dele desperte o amor no seu coração pela escrita dele :)
      bjos

      Excluir
  9. Oi, Melissa!! Obrigada pela visitinha!
    (escuta.. vc mudou o layout né? Curti!!)

    Guria.. tb ando encantada com escritores africanos.. e tudo começou com o maravilhoso Valter Hugo Mãe.. de quem virei FÃ!!

    uM BEIJO, Cami.
    Companhia de papel.
    (Vou te incluir no blogroll) :))

    ResponderExcluir

Olá ! Obrigada pelo comentário, ele será respondido aqui mesmo, ok!?
Obrigada pela visita e até mais!

 
FREE BLOGGER TEMPLATE BY DESIGNER BLOGS