Resenha: Festa no Covil de Juan Pablo Villalobos

24 fevereiro 2014

Festa no covil é o romance de estreia do autor mexicano Juan Pablo Villalobos. Ele narra o livro sob a visão do menino Tochtli, filho de um poderoso traficante mexicano Youcalt, conhecido como El Rey. 


Festa no Covil
Juan Pablo Villalobos
96 páginas
2012
Companhia das Letras 

O pequeno menino vive trancado em sua casa, a qual ele chama de "palácio" e narra sua vida baseada em questões, que tem verdadeira obsessão, como palavras novas conhecidas através da intensa leitura de dicionários, chapéus e uma estranha contagem de pessoas que conhece. Porém, a vida desse mesmo menino é rodeada de violência e crimes, seu pai Youcalt, o que ele não chama de pai, é um narcotraficante mexicano que vive escondido e rodeado de intensa segurança. Essa é a razão pela qual, o pequeno menino conhece pouquíssimas pessoas e vive trancado em seu "palácio".

A vida de Tochtli poderia ser considerada normal se não fosse as situações e as representações nas quais, seu pai, resolve lhe colocar. Tendo como premissa que o menino precisa aprender a ser "macho" e obviamente no futuro assumir seu lugar nos "negócios",  lhe proíbe de chorar dizendo que isso é coisa de "maricas", proíbe-o de lhe chamar de pai, obriga-o a assistir violentas execuções de traidores e brinca com jogos em que há uma previsão de morte através dos supostos tiros que são dados. 

A narração de Tochtli é extremamente infantil, pois toda a história é vista sob sua perspectiva, porém através de suas palavras infantis é fácil perceber o quanto o menino está imerso em duas coisas : violência e solidão. 

E essa solidão o faz desejar animais, que gostaria de ver em um zoológico, mas que seu pai ao querer satisfazer todos os seus desejos, traz para sua casa, tigres, araras, todo tipo de animal está disponível para  Totchli, até ele cismar com uns tais hipopótamos anões da Libéria. Esse também é um mote do livro, a busca desses hipopótamos e a obsessão do menino por tê-los e uma mesma obsessão do pai por satisfazer seu filho com os tais animais. 

Villalobos traz como pano de fundo a situação do tráfico no México, mostrando através de pequenos eventos, envolvimentos de políticos, policiais e toda uma máfia que sustenta e mantem o tráfico ativo. Mas, tudo isso como já disse, é visto pela perspectiva de Tochtli, por isso há uma certa cortina que cobre esse eventos, cortina essa proporcionada pela visão inocente do menino. 

Uma parte muito interessante do livro é a relação que Tochtli tem com certas palavras, as quais vive repetindo e inserindo dentro de seus diálogos. Normalmente palavras fortes, que denotam significados muitas vezes negativos, são usados de forma intensa na vida do menino, sórdido, fulminante e muitas outras expressões são repetidas em diversas situações. 

É impressionante como Villalobos consegue através dos olhos de uma criança, narrar fatos pesados com tanta suavidade, é assustador tantas vezes o mundo em que está inserido esta criança e as situações as quais deve presenciar e vivenciar. É igualmente assustador pensar, que tipo de adulto poderia resultar de uma educação castradora banhada de violência, solidão e agressividade. Talvez não seja uma situação tão distante, talvez somente distante dos nossos olhos. Mesmo que o pai busque satisfazer todos os desejos do filho e nitidamente demonstre que se preocupe com ele, a noção completamente equivocada de educação desse homem nos traz uma sensação de desconforto e incomodo constante. 

A narração de Villalobos é totalmente voltada para a visão de uma criança-narradora, utiliza para isso expressões simples, narrativas incompletas e superficiais mesclado com as palavras mais difíceis que Tochtli aprende nas suas leituras diárias dos dicionários.

Apesar de o livro ser escrito através da perspectiva de uma criança, o livro narra uma história dura, violenta e absolutamente solitária, de um menino que é alheio e relativamente inconsciente de todas essas situações que lhe rodeiam, que enxerga seus animais comendo os traidores assassinados com a mesma despretensão que trata a sua vontade de possuir os hipopótamos anões da Libéria. 

Até mais!

9 comentários:

  1. Uma verdade absoluta: as capas das edições da Companhia das Letras desse autor são MUITO convidativas, cara!
    Futilidades à parte, fiquei muito interessada pelo livro, Mel. Me cativou a sua resenha, comofaz? TU TE TORNAS ETERNAMENTE RESPONSÁVEL POR AQUILO QUE CATIVAS, hahahahahaha brinks.
    Vou ver se tem ebook! <3
    Beijoos!

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    1. As capas são realmente lindas Clara !! E é um livro que vale muito a pena :)
      bjos

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  2. A narrativa infantil é o que torna o livro interessante para mim. E é muito perturbador perceber como a violência é banalizada e inserida em nosso dia a dia desde a infância. Quero ler o outro livro do autor!
    bjo

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    1. É vdd Michelle, acredito que a banalização dessa violência seja o aspecto mais triste desse livro e ainda mais na visão de uma criança.
      bjos

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  3. Ai, que fofo, Melissa! Adoro livros narrados por crianças, acho que ganham uma dimensão profunda e delicada e ....sei lá, me emocionam muito.
    Quero muito ler algo desse autor esse ano.

    beijo grande,
    Maira

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    1. leia sim Maira é um livro muito lindo!
      abraços

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  4. Mel, me dá tapão, pq tenho em digital e nao leio!!!! caramba! E essa tua resenha..... nem comento. É tudo de bom. Ta, pelo menos esse ano eu leio esse, juro!!!!!!!!!!!!!
    :) bjs

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  5. Gostei tanto da leitura (no ebook) que agora estou procurando pra comprar em papel, até porque é muito lindo o laranja com pink!
    O conteúdo nem se fala.. dei muita risada!

    Bjao, Cami
    Companhia de papel

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