Anjos do Universo de Einar Már Gudmundsson

08 janeiro 2014

Quando recebi esse livro, inicialmente, sem ler a sinopse pensei que se tratava de alguma aventura qualquer, talvez uma ficção científica, mas o título não corresponde diretamente ao enredo do livro.


Anjos do Universo
Einar Már Gudmundsson
Editora Hedra
202 páginas
2013
Tradução direto do Islandês por Luciano Dutra
Este exemplar foi cedido com cortesia pela editora

Anjos do Universo escrito pelo escritor islandês Einar Már Gudmundsson narra a vida de Páll, um jovem islandês esquizofrênico. Nosso narrador o próprio Páll, é como Brás Cubas em Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, um narrador morto, ou defunto narrador, ela conta postumamente sua trajetória na vida e a progressão de sua situação como um doente esquizofrênico.


"É evidente que entendo a realidade tão pouco quanto ela me entende. Quanto a isto, estamos quites. Porém, ela não me deve explicação alguma a respeito de qualquer coisa, ao passo que eu continuo tendo de responder perante ela.
Claro que seria bom poder dizer o que disse o filósofo alemão Hegel quando alguém afirmou que as suas teorias não correspondiam a realidade:
- Pobre realidade, não deve ser nada fácil para ela.
Escritores podem escrever isto.
Filósofos podem dizer isto.
Já nós, que estamos internados em sanatórios e instituições, não temos qualquer defesa quando nossas ideias não correspondem à realidade, pois, em nosso mundo, os outros é que tem razão e conhecem a diferença entre o certo e o errado.
A nuvem de medicamentos paira no ar, como se os dias tivessem deixado de ser mover." (página 10)

Entretanto, ao contrário de Brás Cubas que vem com certo humor ao contar sua história, Páll nos conta uma vida difícil, uma história pesada, balanceada entre uma infância relativamente normal e uma juventude marcada pelo início do aparecimento dos sintomas da esquizofrenia. E é bem do inicio que ele começa a contar a sua vida, no dia do seu nascimento, um dia segundo ele, histórico na Islândia, o dia em que o país sofria com intensas manifestações populares pois, estava sendo decidido se a Islândia deveria ou não entrar para a OTAN. Primeiro filho de um casal, cheio de promessas e sonhos, Páll viveu com uma boa condição de vida, divide conosco uma infância de um menino inteligente e ligado a artes, com poucos amigos e muitas ideias.

Mas, é na adolescência e início da vida adulta que os sintomas da esquizofrenia começam a surgir, a ponto de quando lemos a história, termos dúvidas de que aquilo que ele nos narra é real ou não.

O livro é feito de frases curtas, ideias rápidas, acontecimentos contadas de forma esparsa, assim como é a memória do nosso narrador, que não narra para nós uma sequência lógica de eventos, mas momentos cruciais de sua vida ou aqueles os quais são lembrados com certo saudosismo. É também recheado de citações da cultura pop moderna, bandas, acontecimentos históricos são citados, assim como livros e parte da mitologia islandesa, todas marcadas e explicadas através de notas de rodapé.

O livro narra as experiências pessoais de Páll, porém também narra igualmente a incompreensão e completa exclusão que doentes mentais sofrem tanto da família, quanto da sociedade em geral, que pouco compreendem a situação dessas pessoas, seus sintomas e seu estado de doentes.

Acho interessante narrativas que contam histórias de doentes mentais, porque temos uma tendência a compreender e sentir compaixão por doentes de qualquer tipo, pessoas com câncer, HIV, problemas físicos, etc., são tratados de forma bastante compreensivas, porém doenças mentais ainda são tratadas quase como coisas que não existem, sintomas associados a qualquer outra coisa, menos sintomas de uma doença quase invisível, porque normalmente não aparecem em exames e ressonâncias.

"Não pode o senhor ministrar-lhe remédio para a sua mente adoentada, arrancar-lhe da memória dor enraizada, apagar de seu cérebro as preocupações ali gravadas?
Volto a citar Macbeth porque não sei quantas vezes me fiz essas mesmas perguntas, depois de rastejar, ensandecido, para fora do meu refúgio, correndo de pés descalços na calçada em frente à minha casa."
(página 49)

Outro assunto também abordado no livro é o estado destes pacientes em hospitais psiquiátricos, no caso desta história o Hospital Kleppur é quase como um personagem que rodeia a vida de Páll desde a infância, é como se o local em que o personagem fosse parar depois de detectado sua doença, estivesse lhe rondando desde pequeno. Porém, além da caracterização interessante do hospital na história, como disse antes, a situação dentro dele é descrita, desde pacientes jogados e acumulados dentro deste local como se fossem lixo deixados lá, sem nenhum cuidado, limpeza e muito menos tratamento, isso dito por Páll antes de sua internação, até quando o mesmo encontra-se no local, medicados a ponto de passarem o dia completamente dopados e jogados numa cadeira.

Enfim, é um livro que conta uma história de desencantamento, de uma decadência, de um declínio constante, de uma pessoa que possui uma doença grave, mas que foi engolido por ela aos poucos, até não sobrar mais nada.

Até mais!

7 comentários:

  1. Quando vi esse livro pela primeira vez imaginei que se tratasse de alguma doença, porém não li a sinopse e agora vendo a sua resenha, vejo que se trata de uma história bem triste, parece um bom livro que eu gostaria de ler!

    Estandy Books - A Estante Da Andy

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  2. Achei bem interessante sua resenha e gostei bastante do titulo também, me chamou atenção... As partes que você grifou acima, gostei bastante...

    Seguindo :3
    http://asalvarmomentos.blogspot.com.br/

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  3. Histórias trazendo um melhor reconhecimento para os casos de doenças mentais são realmente importantes hoje em dia! Esquizofrenia então trás um mote excelente para grandes cenas e um enredo que pode ser cheio de detalhes e loucuras, ilusões. :)

    Vou me informar mais do livro, se for ler comento com você depois :D

    Beijos ;)

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  4. Eu adoro esses livros Mel. Sempre leio relatos de casos reais, ficções são raros, vai entrar para os desejados esse.
    Beijão!

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  5. Oi Melissa, esse livro me interessou. Tenho certa queda por narradores assim, gosto da fragilidade e sinceridade que esse tipo de voz transmite - é como se o personagem estivesse ao lado.
    Esse parece ser algo doloroso de ler, ver o personagem se perder enquanto a própria narrativa também muda, me deixou com muita vontade de ler.

    bjs!
    Maira

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  6. Pela capa, também acharia que é ficção científica.
    Não dá nem para imaginar como deve ser difícil a vida de pessoas com transtornos mentais. A narrativa deve ser muito angustiante.
    Valeu por me mostrar um livro que eu desconhecia totalmente e que parece ser bem interessante :)
    bjo

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