A Marca Humana de Philip Roth

10 dezembro 2013

Escrever sobre um livro como A Marca Humana, não é uma tarefa fácil. Nada fácil aliás.
 
Conheci Philip Roth através das postagens e resenhas do blog O Espanador, ao ler o post comemorativo de 80 anos do escritor, fiquei me perguntando porque não tinha lido da sua obra ainda. Com certeza desconhecimento vergonhoso.

A Marca Humana
Philip Roth
456 páginas
2013 - 4º reimpressão
Companhia das Letras
Este livro foi cedido pela editora para resenha

Escolher o primeiro livro que se deve ler de um autor consagrado, é uma tarefa complexa porque, obviamente você não o conhece e escolher as cegas é difícil, por isso resolvi seguir as sugestões da postagem d'O Espanador para me orientar na minha pequena aventura na obra de Philip Roth. Eu acho que acertei em cheio quando escolhi A Marca Humana.

Philip Roth é um escritor estadounidense de origem judaica, hoje com 80 anos, vencedor do prêmio Pulitzer pela obra Pastoral Americana e considerado um dos mais importantes escritores da segunda metade do século XX. É conhecido principalmente pelos seus romances, como Pastoral Americana, O complexo de Portnoy e O homem comum. 

Acho que todos já tivemos aquela experiência de tomar um soco no estômago de leve, aos poucos, é como se esse soco fosse dado em câmera lenta, em pequenas doses, em pequenas linhas, letra a letra ... Philip Roth faz isso em A Marca Humana. 

"Nos Estados Unidos, foi o verão em que a náusea voltou, em que as piadas não paravam, em que as especulações e teorizações e hipérboles não cessavam, em que a obrigação moral de explicar aos filhos como é a vida adulta foi ab-rogada em nome da necessidade de conservar-lhes todas as ilusões a respeito do assunto, em que a pequenez das pessoas tornou-se esmagadora, em que uma espécie de demônio andava à solta por toda a nação e em que as pessoas, tanto as prós como as contra. se perguntavam : " Por que somos tão malucos?"; em que homens e mulheres, quando acordavam de manhã, constatavam que, durante a noite, num estado de sono que os levara além do alcance da inveja e da repulsa, haviam sonhado com a desfaçatez de Bill Clinton. Eu, em particular, sonhei com uma faixa gigantesca: AQUI MORA UM SER HUMANO. Foi o verão em que - pela bilionésima vez - o caos, a brutalidade, a bagunça. se revelaram mais sutis do que a ideologia ou a moralidade. Foi o verão em que o pênis de um presidente esteve na cabeça de todos , e a vida, com toda a sua pureza desavergonhada, mais uma vez confundiu todo o país". (pg 12)

O livro conta a história de Coleman Silk, um judeu, decano de uma universidade nos Estados Unidos, que se depara com uma grande confusão, é acusado por 2 alunos negros de tê-los agredido com uma palavra, "spooks", que em inglês na sua tradução literal remete a algo como "assombração", porém foi utilizado durante o início do século XX nos Estados Unidos, como uma forma de agressão verbal a negros. Coleman utiliza a palavra em sala, para designar dois alunos, que nunca tinham aparecido em sua aula. Essa confusão ao longo das primeiras linhas mostra-se como um grande mal entendido (e posteriormente uma grande ironia).

Entretanto, esse mal entendido, causa da demissão do decano que modernizou a universidade e era tão aclamado e competente na posição que ocupou durante anos. Isso causa uma tempestade na vida de Coleman, trazendo a tona velhas e novas questões na sua vida.

O livro é narrado por Nathan Zuckerman, uma personagem que aparece em diversos livros de Roth. Nathan se torna amigo de Coleman, após um pedido desesperado de que Nathan escreva sua história. E assim acontece, se tornam amigos e Zuckerman é responsável pela narração da trajetória de Coleman. 

O livro se passa na década de 90, começa narrando o acontecimento no governo de Bill Clinton, sobre a revelação do caso que o ex-presidente teve com sua estagiária na época, Monica Lewinsky, história essa que é o pano de fundo do livro. A história é um vai e volta na vida de Coleman, mas não só na dele, ao redor dele várias histórias são também narradas, como a de Faunia Farley a "amante" de Coleman, do seu marido Les Farley, do próprio Zuckerman e de tantas outras pessoas que entram e circundam a vida de Coleman e o ajudam a traçar seu destino.

A escrita de Roth é dura, categoricamente simples porém densa e profunda. É a história de pessoas marcadas e que marcam a vida de outros. É a história de nossos pequenos e grandes segredos que preferimos ignorar e manter escondido numa gaveta qualquer.

“(...) nós deixamos uma marca, uma trilha, um vestígio. Impureza, crueldade, maus-tratos, erros, excrementos, esperma — não tem jeito de não deixar. Não é uma questão de desobediência. Não tem nada a ver com graça nem salvação nem redenção. Está em todo mundo. Por dentro. Inerente. Definidora.”(pg 308)

Roth trata de forma muito aberta a questão do politicamente correto e do puritanismo tão comum nos EUA. O livro trata de segredos que mantemos, percepções que temos e os julgamentos que fazemos a partir dessas suposições. É um livro da alma humana, dissecada e jogada na nossa frente de forma crua e muito simples. 

Philip Roth
Roth vai de encontro as principais questões da sociedade, política, sexo, etnias, questões éticas, guerra, os maus de uma sociedade que mais se esconde do que se mostra, que finge mais do que é honesto consigo e com os outros. É uma história brilhante a qual não estou fazendo nem o minímo da reverência que ela merece.

Alguns poderiam dizer que esse livro faz um crítica, mas eu acho que Roth não pretende isso, ele pretende mostrar, revelar essas pequenas idiossincrasias humanas, faze-las vir a superfície de cada um de seus personagens. É mais um revelar do que um criticar, tudo que se passa no livro. Roth traz a tona nossas marcas, nossos segredos que temos medo de revelar, as marcas humanas que deixamos em cada um que passa por nós e que eles mesmo deixam em nós.

É um livro brilhante, daqueles que você termina e já quer reler, daqueles que você termina de ler e ficado parado, pensando e analisando se conseguiu absorver tudo que o livro pôde proporcionar.

Com certeza, uma das minhas melhores leituras já feitas.

Até mais!

11 comentários:

  1. Wow.... pra quem não sabia como falar sobre o livro.... clap clap clap...
    mas é claro, vc é mestre jedi!!! :)

    Xerinhos, Mel!!!

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    1. Oh lindeza Paty! Obrigada querida ! beijinhos.

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  2. Menina, amei o texto, você simplesmente vendeu o livro! Dele eu só li Pastoral Americana onde ele trata de valores familiares. Tenho alguns em casa menos esse que me pareceu indispensável! Dica anotada.

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    1. Oi Glaucia, que bom ver vc por aqui ! Pastoral ainda não li, mas vou ler em breve, estou com "sede" da obra do Roth agora!
      bjos e obrigada pela visita!!

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  3. Ai que lindeza, quero ser esse livro pra ONTEM, pode, Produção??? Fico feliz quando alguém se apaixona por um autor e escreve de forma tão apaixonada sobre a sua obra! Já tá na lista de 2014!
    Beijos, sua linda!

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    1. Eh que legal Renata !! Espero sua opinião sobre o livro!
      beijinhos

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  4. Melissa, seu texto está excelente! Estou cada dia mais ansiosa pra conhecer o Roth. Agora estou em dúvida, tenho o "Complexo de Portnoy", mas talvez comece mesmo com "A marca humana". Adorei seu texto, de verdade, fui contagiada, rs.
    beijo grande,
    Maira

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    1. Que bom Maira, ainda bem que pude contagiar, porque realmente esse livro é maravilhoso, ainda não li Portnoy, mas é o clássico dele, mas também dizem ser um dos mais difíceis para ler !
      Espero suas opiniões sobre o Roth !
      beijinhos

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  5. Mel,
    Realmente, escolher o primeiro livro de um autor consagrado é difícil demais. Eu estou nessas com os livros do Philip Roth e de outros escritores famosos. Acredita que eu já tinha ouvido falar várias vezes sobre "A marca humana", mas não sabia sobre o que era? Seu post me ajudou muito. Dica anotada para quando for encarar o Sr. Roth ;)
    bjo

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    1. Oba que bom Mi! a Marca Humana achei um ótimo livro como porta de entrada na obra de Roth, não me arrependi!
      beijos

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  6. "A marca humana" é um livro maravilhoso, sem a menor dúvida! Caso leia minha mensagem, visite meu blog também. Terminei de ler o livro hoje e estou abismada de tão bom que ele é, embora eu já tenha lido outros livros do autor. Sou uma fã do Philip Roth, aliás.
    www.abibliotecades.blogspot.com

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