Resenha: Estórias Abensonhadas de Mia Couto

07 junho 2013

Sabe quando você gosta tanto, mas tanto de um livro que não sabe bem o que dizer ? Pois é, é o caso desta resenha, não sei bem o que dizer além de .... que livro maravilhoso!


Estórias Abensonhadas
Mia Couto
2012
Companhia das Letras
160 pgs

Este é um livro de contos escritos por Mia Couto após o fim da guerra em Moçambique e foi publicado em 1994 pela primeira vez, mas no Brasil só chegou em 2012 nesta edição da Cia das Letras.

Eu nunca tinha lido Mia Couto, tive meu primeiro contato com os livros dele assistindo os vídeos da Denise Mercedes do blog Meus Olhos Verdes e da Juliana Gervason do blog O Batom de Clarice. São tantos elogios que, é impossível não ficar com aquela pulga atrás da orelha de curiosidade, a pulga ficou atrás da minha orelha e lá fui eu ler Mia Couto.

Comecei por Estórias Abensonhadas, ainda não li outros livros dele, mas acho que comecei pelo livro certo. Confesso que tenho minhas barreiras literárias com contos, acho que a razão de não gostar tanto de lê-los vem do fato de que as histórias acabam tão rápido que não tenho tempo para saboreá-las e me apegar a elas como se apega a um livro e suas personagens e nunca mais se quer larga-los. Foi aí que Mia Couto me fez ver os contos de uma forma diferente, eu me deliciei em cada uma das histórias, pequenos fragmentos fantásticos de retratos de vida que Mia Couto criou divinamente.

São 26 contos de pura poesia, Mia Couto tem uma forma de escrever que enfeitiça e apaixona, a delicadeza e a sutileza com a qual trata muitas vezes de assuntos delicados é impressionante. Desculpe se nessa resenha mais pareço uma leitora apaixonada do que uma simples leitora, mas fato é que a escrita de Mia me encantou de uma forma como pouquíssimos autores conseguiram. 

O livro trata de assuntos como guerra, morte, dor, abandono, sofrimento, mas também a cada história a esperança de um novo começo é contada. São histórias de recomeço, que trazem lágrimas e sorrisos, as vezes separados mas, as vezes juntos.

"Tristereza vai escovando o casaco que eu nunca hei de usar e profere suas certezas:

-Nossa terra estava cheia de sangue. Hoje, está a ser limpa, faz conta é essa roupa que lavei. Mas, nem agora desculpe o favor, nem agora o senhor dá vez a este fato?
- Mas, Tia Tristereza : não será está a chover demais?
 De mais? Não, a chuva não esqueceu os modos de tombar, diz a velha. E me explica: a água sabe quantos grãos tem a areia. Para cada grão ela faz uma gota. Tal igual a mãe que tricota o agasalho de um ausente filho. Para Tristereza a natureza tem seus serviços, decorridos em simples modos como os dela. As chuvadas foram no justo tempo encomendadas: os deslocados que regressam a seus lugares já encontrarão o chão molhado, conforme o gosto das sementes. A paz tem outros governos que não passam pela vontade dos políticos." (Chuva: a abensonhada)

As analogias com Gabriel Garcia Marquez e João Guimarães Rosa não são à toa, guardando as peculiaridades de cada autor, todos compartilham a criação de histórias que vagueiam entre o real e o fantástico, entre contar as histórias de seus povos, de sua cultura, crendices, mitos, daqueles detalhes que só quem sabe é quem os conhece, porque os vive ou os ouve. Nesses quesitos não vejo autores mais espetaculares do que estes três. Acho que parte da minha completa admiração por Mia Couto provém do mesmo tipo de leitura que Guimarães Rosa fazia do sertão brasileiro e Mia Couto faz de seu país Moçambique. 

Por todo o livro há um jogo com as palavras, por vezes combinando-as ou criando nomes de personagens mais do que sugestivos. São trocadilhos, criações que dão um toque especial e querem dizer mais do que um simples trocadilho. 

"Toda a estória se quer fingir verdade. Mas a palavra é um fumo, leve demais para se prender na vigente realidade. Toda a verdade aspira a ser estória. Os factos sonham ser palavra, perfumes fugindo do mundo. Se verá neste caso que só na mentira do encantamento a verdade se casa à estória. O que aqui vou relatar se passou em terra sossegada, dessa que recebe mais domingos que dias de semana. 

Aquele chão ainda estava a começar, recém-recente. As sementes ali se davam bem, o verde se espraiando em sumarentas paisagens. A vida se atrelava no tempo, as árvores escalando alturas. Um dia, porém, ali desembarcou a guerra, capaz de todas as variedades da morte. Em diante, tudo mudou e a vida se tornou demasiado mortal." (O cachimbo de Felizbento)

A leitura desse livro só pode produzir uma sensação : de encantamento, seja com a escrita poética e doce de Mia Couto, seja pela estórias cheias de esperanças e recomeços banhadas nas histórias orais, lendas e mitos de um povo, rasgando a sua essência e seu espírito na nossa frente, seja pelo que for é daqueles livros que a gente fica triste quando acaba, como se sentindo abandonada, abandonada pela sensação de conforto e carinho que cada palavra magnífica escrita nessas estórias pôde trazer.



Até mais !

10 comentários:

  1. Que delícia de post, Melissa!
    Sim, você pareceu mesmo uma leitora apaixonada. E qual o problema? Mostrou que o livro realmente te tocou. Eu continuo com a pulguinha atrás da minha orelha para ter um encontro com o Mia Couto. Mas meu dia vai chegar ;)
    bjo

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  2. Lindo o post Mel ;)
    Tristereza é uma das coisas mais lindas entre as coisas lindas que o Mia inventou!
    Beijo enorme e que você afunde mais e mais nesse universo!
    Tati

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  3. Senti a mesma dificuldade que você teve ao escrever sobre esse livro, mas sua resenha está digna de um livro como esse. Como diz a Denise Mercedes, Mia Couto é muito amor.

    Parabéns!

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  4. Muito bom! Você apresenta muito bem a sua opinião!

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  5. Mais de dois anos após este post aqui estou ,prestes a começar a ler estórias abensonhadas de Mia Couto. Espero me apaixonar por este livro tanto quanto vc Melissa Padilha!

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  6. Mais de três anos se passaram depois desse post, e eu vou escolher um conto do livro estórias abensonhadas e explicá-lo para a minha turma da escola. Boa sorte para mim kk..

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