Resenha: A Abadia de Northanger de Jane Austen

17 maio 2013

Todos que acompanham o blog e que me conhecem sabem que amo Jane Austen, uma das obras que faltava para ler era justamente A Abadia de Northanger.

Faltava porque não falta mais.




A Abadia de Northanger
Jane Austen
Editora Bestbolso
2011
Tradução de Julia Romeu
253 páginas

A Abadia de Northanger (Northanger Abbey, 1818) foi publicado postumamente mas, não foi o último livro escrito por Jane, na verdade foi o primeiro.

Em 1803 o manuscrito desse livro foi adquirido por um editor, mas que não o publicou porque teria perdido o interesse pelo livro. Com isso, os direitos ficaram sob a guarda de tal editor, e Jane Austen só conseguiu reaver o manuscrito em 1816, mas o livro só foi publicado   um ano após a sua morte em 1818 pelo seu irmão. Inclusive o título do livro "A Abadia de Northanger" foi escolhido pelo irmão de Jane, por isso nunca saberemos qual seria o título real dado pela autora. 

No prefácio do livro é dito que este é um ótimo exemplo do início da carreira literária de Jane, e nesse sentido realmente é um tanto quanto diferente dos outros. 

A linguagem desse livro é mais sarcástica e irônica do que qualquer outro livro que li de Austen, além de ser um tanto quanto mais "leve". Poucas são as descrições detalhadas de ambientes e espaços, como por exemplo em Emma. A história flui mais facilmente, na minha opinião devido a sucessiva narração de acontecimentos, viagens, discussões das personagens. Emma é um exemplo contrário a Abadia, com muitas descrições e pouca ação, o livro foca mais na relação das personagens do que em acontecimentos e aventuras como em Northanger. Lembrando que Emma foi um dos últimos livros escritos por Austen em 1816, um ano antes de sua morte.

A Abadia de Northanger é uma obra satírica à publicações, que na época eram muito comuns,  os romances góticos. Austen brinca com a ideia de locais onde eventos sobrenaturais acontecem, tudo isso regado a imaginação da nossa heroína, Catherine Morland.

Catherine é uma menina de 17 anos, fã de romances principalmente da Srª Radcliffe, famosa escritora de romances góticos da época. Austen cita autores, trechos de obras desse tipo de literatura da época a todo momento do livro, seja como referência a comportamentos, pensamentos e atitudes de Catherine, ou para levantar uma importante defesa aos romances, que eram muito criticados na ápoca. 

(...) Se uma manhã chuvosa as impedisse de aproveitar outros prazeres, ainda faziam questão de se encontrar, desafiando vento e lama, e trancar-se para ler romances. Sim, romances - pois eu não adotarei esse rude e mesquinho hábito, tão comum entre os escritores de romances, de degradar com censuras cheias de desprezo o tipo de obra que eles próprios produzem. Esses escritores se unem aos seus maiores inimigos, lançando os piores insultos a essas obras e quase nunca permitindo que elas sejam lidas por suas próprias heroínas que, quando tocam em um romance, logo são vistas virando suas insípidas páginas com nojo. 

Que pena! Se a heroína de um romance não for tratada com condescendência pela heroína do outro, de quem ela poderá esperar proteção e carinho? Não posso aprovar tal maneira de agir. Deixemos que os críticos literários ofendam essas efusões da imaginação tanto quanto queiram, e que, com as mesmas velhas fórmulas, se lamentam do lixo que os faz gemer. Não vamos desertar uns aos outros. Pertencemos a uma profissão ultrajada. Embora nossas produções tenham oferecido prazer mais extenso e genuíno do que aquelas vindas de qualquer outra corporação literária do mundo, nenhum gênero de composição jamais foi tão depreciado." (pg 33-34)

Ouch!, não disse que Austen é bem ácida neste livro!
"(...) Ela tivera (mãe de Catherine) três meninos antes de Catherine nascer e, ao invés de morrer ao trazê-la ao mundo, como qualquer um esperaria, continuou vivendo - viveu para ter outras seis crianças e para vê-las crescer ao seu redor, gozando ela própria de boa saúde."

Catherine não é bonita, nem feia, é na verdade uma menina regular, como todas as outras, sem nada de muito especial, a não ser a sua vivida imaginação. É nesse contexto que Jane apresenta a sua primeira heroína, uma menina que gostava mais das "brincadeiras de meninos" e ler romances do que comprar vestidos bonitos e ir em piqueniques (vide Emma). Não era um exemplo de menina, não sabia desenhar, cantar ou tocar piano, habilidades muito importantes para uma mulher na época, enfim Catherine é toda a oposição a uma heroína do século XIX.
"Ninguém que houvesse conhecido Catherine Morland durante a infância imaginaria que ela nascera para ser uma heroína de romance. Sua posição social, a índole de seus pais, mesmo seu aspecto físico e temperamento, tudo estava igualmente contra ela."
"(...) Catherine jamais conseguiu aprender ou compreender nada do que lhe ensinassem. E às vezes nem assim, pois com frequência era desatenta e, ocasionalmente, burra."
"(...) Aos 15 sua aparência começava a melhorar. Ela passou a fazer cachinhos nos cabelos e a desejar ir a bailes; sua tez ficou mais bonita; seus traços foram suavizados por faces mais cheias e coradas, os olhos ganharam vivacidade e o corpo, simetria. Seu amor à lama deu lugara uma inclinação por belas roupas, e ela ficou mais limpa à medida que foi ficando mais bonita (...). Ser quase bonita é, para uma menina que havia sido sem graça durante seus primeiros 15 anos, uma prazer maior do que jamais sentirá alguém que foi uma beldade a vida inteira."
"(...) E Catherine, durante muitos anos de sua vida, foi mais comum ainda. Tinha um corpo desajeitado e magricelo, o rosto pálido, cabelos escuros e escorridos e feições brutas. Assim era seu físico, e não menos imprópria pra o heroismo parecia sua mente. Catherine gostava de brincadeiras de meninos: preferia o criquete não apenas às bonecas, mas também as mais heróicas diversões da infãncia, como cuidar de um esquilo, alimentar um canário ou aguar uma roseira. Não tinha interesse algum por jardins e, se colhia uma flor, era mais pelo prazer de fazer uma travessura."

Bom , já deu para notar a forma como a narradora (ou Austen) descreve sua heroína, duramente e sem nenhum floreio. 

E assim, continua durante o livro com todas as personagens. É um livro de pessoas "normais", banhado a relacionamentos, pessoas ricas e nem tão ricas assim como Catherine e sua família, mas cheia de pessoas comuns narradas e explicadas da mesma forma. Surpreendi-me muito com as descrições dessas personagens. 

Continuando a história, Catherine é convidada pelos seus vizinhos Sr e Srª Allen, ricos e sem filhos, para passar uma temporada na cidade de Bath. E é lá que Catherine cresce e encara a vida de verdade.

Por viver em uma fazenda, nossa heroína é uma menina simples, completamente inocente e sem malícia alguma. Não percebe maldade em ninguém e  muito menos investidas amorosas a sua pessoa. Logo que chega, conhece Isabella Thorpe que se torna sua melhor amiga durante boa parte do livro, e junto com Isabella vem o irmão John Thorpe, um rapaz mimado mas, amigo de um dos irmãos de Catherine, James Morland. É principalmente através da relação com os irmãos Thorpe que Catherine começa a perceber certas características não tão boas nas pessoas. Como no livro Emma, Jane Austen nos mostra um crescimento pessoal de uma de suas personagens principais, de adolescentes mimadas ou inocentes a adultas mais conscientes e maduras. 

Henry Tilney é o oposto a John Thorpe, e o par romântico de Catherine. Muito rico, Henry conhece Catherine em um dos bailes que ocorrem em Bath, e a admiração de Catherine por Henry é imediata. Também é descrito como um homem comum, sem nada de especial em sua fisionomia. 

Henry é um típico cavalheiro, romântico, educado e atencioso, um tanto quanto perspicaz e sarcástico as vezes, mas nunca abandonando os bons costumes aos quais está tão acostumado. É da família Tilney, Henry, seu irmão Capitão Tilney, sua irmã Eleanor e de seu pai Coronel Tilney, a abadia que nomeia o livro, e é lá que a imaginação de Catherine chega ao seu ponto mais alto. 

Henry e Catherine não fazem o papel do casal típico de romances, nem mesmo nos de Austen. Não há nessa relação uma paixão avassaladora, nem diria mesmo uma paixão, mas uma admiração que cresce ao longo da história e se torna conveniente principalmente para Henry e mais romantizada para Catherine. 

Jane Austen mostra muito em seus romances personagens femininas menos abastadas do que seus pares românticos, e meninas que não aceitam casamentos simplesmente por uma conveniência social e baseados em suas posses. É assim aqui, Catherine é muito menos afortunada que Henry, assim como Lizzie Bennet em Orgulho e Preconceito é em relação a Mr. Darcy, uma exceção é o romance Emma, nele há um relacionamento baseado em situações sociais e monetárias iguais entre Emma e Mr. Knightley. Jane mostra muito mais mulheres e homens que se casam por sentimento iguais sejam uma grande paixão (nunca imediata, mas construída ao longo da história) ou uma admiração que leva a uma conveniência e posteriormente ao amor. 

Gosto dessa característica dos romances de Austen, não há paixões avassaladoras que tiram o sono e causam depressão, mas são amores construídos ao longo da história e do mútuo conhecimento das personagens. 

Mais uma obra de Jane que entra para minha lista de livros favoritos, como disse é um livro irônico, diferente dos demais, e por isso arranca risadas em muitas de suas partes, é leve, simples e flui fácil. Mais do que recomendo.



Este livro também faz parte do Desafio Literário 2013 para o mês de maio. 

Até mais!

20 comentários:

  1. Esse eu ainda não tenho, Mel, mas com certeza fará parte da minha coleção. Jane pra mim é amor e estabilizador de humor! ;o)
    Fiquei ainda mais curiosa pelos pontos de ironia e sarcasmo que apontou.

    Xerinhos, lindeza!
    Paty

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  2. Está na minha lista de leituras, por isso nem li o texto todo com medo de ler um spoiler... Mas assim que eu acabar de ler, volto pra comentar!
    Beijos

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    1. Acho que não coloquei spoiler, mas espero vc de volta depois da sua leitura! bjos

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  3. oie
    menina, eu sou fã master da diva JA, mesmo tendo lido apenas 3 obras dela. Preciso ler as outras 3 que faltam, e a abadia é uma das que eu mais estou ansiosa para começar a leitura, justamente por este lado ácido de austen ser bem proeminente na narrativa. Tenho certeza que irei adorar, afinal, Jane não decepciona nunca.
    ótima resenha.Adorei os quotes selecionados.
    bjos

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  4. Ótima resenha! Deu muita vontade de voltar a ler Jane Austen; e creio que vou gostar desse livro, pois adorei essa ideia de uma Jane mais irônica! ;)
    Beijos!

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  5. Oi Melissa!
    Eu gostei muito de Emma, mas confesso que não foi uma leitura muito fácil especialmente pelas descrições extensas. Eu gostaria de ler todos os livros da Jane Austen neste ano, mas estou um pouco enrolada com minhas leituras. Se o livro é mais direto, mas conserva as características da autora, sem dúvida me deixou mais animada para ler.


    Beijos!
    >> Nine
    Estante da Nine [http://goo.gl/MA5IR]

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    1. Leia sim Nine o livro é ótimo e tb gostaria de terminar todos os livros da Jane este ano!!
      bjos

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  6. Nunca li nada da autora, nõ sei pq essas descrições detalhadas d+ não é mto a minha praia, mas qdo vc disse que esse er mais leve do que as suas outras obras já me deixou com vontade de ler. Gostei de tudo de um modo geral, vou anotar para quem sabe no futuro ler.

    Andy_Mon Petit Poison

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  7. Melissa, adorei sua resenha!!!
    "A Abadia" já entrou pra lista de livros que preciso ler o quanto antes, rs! E é Austen, com certeza, vou gostar.
    "Emma" é outro livro que preciso adquirir para ler :)

    Beigos!

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  8. Ainda não li "A abadia...", mas já gostei! Principalmente por ser menos descritivo e mais irônico. E a mocinha ainda tem um lado mais moleca? Tem tudo para ser meu livro favorito da Austen...hehe.
    bjo

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    1. É muito bom sim, Michele!
      bjos e obrigada pela visita!

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  9. Adoro este livro e adorei a resenha, Mel! Gosto muito dos elementos góticos dessa narrativa. Mais um clássico de Austen, com certeza :)

    Boa semana! Bjo!!

    Rô.
    (des)cortinada palavra

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  10. Acabei de comprar o livro e sua resenha me deixou mais animada para lê-lo!

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  11. Já estou na metade do livro e estou adorando; imagino Jane nos dias atuais fazendo críticas de livros como Crepúsculo.

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